sábado, 12 de janeiro de 2013

Carta ao leitor


Caro leitor, vim lhe contar que a vida não é fácil. Digo, até pode ser fácil para quem já nasceu com a parte financeira bem estabilizada, uma família que te apoia e destinado a não sofrer por amor. Aí sim a vida me parece muito fácil. Mas a gente sabe, casos assim são raros. Raríssimos. Não baixe o mouse e nem feche a página. Continue aqui. Leia. Por favor.
Sabe quando está dando tudo certo? A vida segue calma, a sensação de alegria está presente constantemente em seu dia a dia... Desconfie. Sério, desconfie. Quando você menos espera, a tempestade chega. Ela derruba seu barquinho que navegava em paz na calmaria desse mar sem fim. E você chora. Esperneia. Grita. Se joga no chão. No fundo, você sabe que nada disso resolve seu problema. Mas faz tudo isso. Não adianta negar, eu sei que você faz.
Você senta no chão, coloca as mãos na cabeça e a cabeça entre as pernas... E desaba. Levanta com raiva, batendo a porta e parando mais adiante para chorar de novo. Você extravasa a raiva, joga as coisas, grita o máximo que pode na esperança de explodir e tudo isso acabar. Depois acalma. Continua chorando, mas agora deitado na sua cama, desejando ser abraçado e se sentir acolhido. Desejando ouvir um "vai ficar tudo bem". O sono te vence e você adormece. Pronto, a tempestade já se foi.
E como eu sei disso? Ah, leitor amado, tão ingênuo... É que, de certo modo, sou leitora também.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Coisas sobre o amor... E o perdão


Eu sou assim. Desculpa. Faço tudo errado. Falo tudo na hora errada. Às vezes, até mesmo machuco a pessoa errada. Apenas me desculpe. Não planejei nada disso, fiz por impulso. Mas eu vou mudar. Quer dizer... Vou tentar. Tenta entender, não é fácil para mim também.
Eu não estava acostumada com gente revirando minha vida. Você chegou, assim do nada, e já fez toda a bagunça que nem um furacão seria capaz de fazer. Eu gosto disso (às vezes). Calma aí, volta cá, sorria para mim e me dê a chance de ao menos tentar explicar. Sabes que sou péssima com explicações, mas por você eu posso tentar. Enquanto isso, apenas me ouça e tente me perdoar.
Eu te prometo, meu bem, vou me esforçar e fazer o melhor que posso. Em contra partida, prometa-me que não guardará mágoas. Você sabe, aliás, sempre soube, que eu nunca quis brigar. Tenha calma, sente-se no sofá e deixe eu terminar. Não faz mais isso, tá? Não vai dormir sem antes olhar para mim, beijar minha testa e dizer "dorme bem". Pode não ter noção, mas isso importa. Importa muito.
Eu não seria quem sou, não teria feito o que fiz e não teria dito o que disse, se não fosse por você. Oh, meu raio de sol, vamos parar de manha e volte a iluminar-me com seus belos olhos. Olhe para mim. Fixe o olhar no meu. Eu quero te dizer que gosto de você. Gosto muito. Do meu jeito errado, é claro, mas gosto. Desculpa, tá?

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Refazer-se


Chorava sentada num canto do quarto escuro, com o rosto entre as pernas e as mãos molhadas de lágrimas. Tinha ao lado uma lâmina minimamente afiada, e se mal usada, capaz de causar mortes. Sentia a carne do corpo tremer de nervoso. Nervoso não, talvez desgosto, tristeza, falta de motivos para continuar seguindo em frente.
Foi aí que sentia que havia algo a mais do que o próprio corpo tremendo, o chão e as paredes movimentavam-se. Devagar o solo começou a se abrir, numa rachadura de comprimento duas vezes maior que a largura e as paredes pouco a pouco caíam em cima da grota, fazendo-a entrar na tal rachadura, afogando-se nas águas vermelhas que de lá saíam.
Nadava. Nadava. Nadava. De pouco adiantava, quanto mais se debatia, mais afundava nesse mar vermelho. Era o mundo que acabava. Acabava-se em lágrimas, dores, mágoas, rostos inexpressivos incapazes de sorrir, gritos mudos. Entendia agora o ápice da dor e do sofrimento, mas fisicamente nada sentia.
Adormeceu.
Acordou na manhã seguinte com o rosto amassado, as costas doendo e manchada de sangue. Não só ela manchada, a lâmina também. Levantou-se e dirigiu-se ao banheiro. lavou o rosto, as manchas de sangue e trocou de roupa. Botou a mochila nas costas e saiu portão afora.
- Bom dia - disse ao primeiro estranho que viu.
Percebeu depois de instantes que esqueceu de sorrir. Então sorriu. Era o sorriso mais bonito que qualquer um já tenha visto, porém ninguém desconfiava que além de lindo, era falso.
- Ei, bom dia! - ouviu de uma voz conhecida.
- Bom dia! - respondeu acenando e sorrindo.
A amiga pegou seu braço e virou-o de modo que a palma da mão ficasse virada para cima. Entristeceu-se.
- De novo? - questionou.
- Já vi o mundo acabar algumas vezes, mas no dia seguinte está sempre tudo bem. O sol nasceu de novo. Trago no pulso as marcas dos apocalipses, geralmente noturnos, porém mais uma vez o mundo se refez. Agora está tudo bem.
E sorriu. Apenas sorriu.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O desespero pede um fim



Era noite. Vasculhou o guarda-roupa e escolheu seu melhor vestido. Sentou-se de frente a penteadeira e ali ficou durante longos minutos, fitando o espelho. Enxergava apenas uma imagem vazia. Maquiou-se e lentamente dirigiu-se a porta de entrada da residência. Sentou-se no terceiro degrau da escada, colocou o rosto entre as mãos e pôs-se a chorar.
Tinha pensado muito antes de tomar tal decisão, mas, segundo ela, não tinha opção. Desceu os três degraus que lhe faltavam e saiu andando. No começo era uma caminhada meio que sem rumo, as poucas pessoas que se encontravam na rua olhavam-na com certo receio, umas se atreviam em sentir uma pontada de pena, afinal, uma garota tão nova e bonita desvencilhando-se em lágrimas, sozinha pelas escuras ruas de Freiburg im Breisgau – Alemanha – numa fria noite de domingo.
 Ela não se importava com o que as pessoas poderiam estar pensando, apenas seguia seu caminho, agora em direção ao rio Dreisam. Quando chegou à beira do rio, sentou-se. Repassou cada momento feliz que vivera ao lado da mãe. Pensou em como a mãe era jovem e saudável, isto é, antes do acidente. Se perguntava o porquê de alguém alcoolizado sair dirigindo pelas rodovias de Freiburg. A verdade é que não conseguia mais lidar com a situação em que se encontrava, a mãe vegetando em cima de um colchão, auxiliada por aparelhos respiratórios e a grande dúvida de quando a morte chegaria para aquela pobre mulher. Fitou o rio. Jogou-se. Não sabia nadar.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Talvez...

Sentou na escrivaninha e derramou-se em lágrimas. Passava os dedos nos olhos na tentativa de enxugar as pequenas gotas transparentes de sangue, mas quanto mais o fazia mais líquido escorria. Não sabia quando tudo havia começado, muito menos de onde havia surgido o sentimento, mas ela tinha uma certeza: era amor.
Era apenas uma certeza contra numerosas dúvidas e aquela tal da insegurança. Não era uma batalha justa, às vezes o amor sozinho não é o suficiente.
Recostou na cadeira e, ali mesmo, as memórias vieram à tona. Ela sentada na grama do parque e seu amor deitado em seu colo, ela acariciava seus cabelos enquanto o amor da sua vida sorria. Foram momentos felizes. Foram. É um verbo no passado, mas só é passado no quesito tempo da vida real, porque dentro dela era presente. Momentos eternizados dentro de um coração.
Talvez. É essa a palavra que ela não vai mais usar. Talvez. Talvez. Talvez. Talvez. Talvez. É o que ecoava em sua mente. Já não conseguia dominar ou definir o que acontecia dentro de si, era raiva, culpa, tristeza, amor. Uma excêntrica mistura de sentimentos. Amor. Ah, o amor. Entre todos, esse prevalecia. Desse ela nunca duvidou. Posso te contar uma coisa? Ela deixou o seu amor escapar, tudo devido ao dizer uma simples palavra. Não se sabe ao certo se a culpada foi ela, mas ainda hoje ela se culpa. Você pode dizer a ela “a culpa não foi sua” quantas vezes desejar, a resposta dela sempre será: “e se eu tivesse dito ‘sim’ invés de ‘talvez’?”

sábado, 26 de novembro de 2011

Tijolo sobre tijolo




Continue sentado, vou te contar uma história.
Ela é a filha mais velha, tem um casal de irmãos. Sua mãe trabalhava no Tapete São Carlos e seu pai era motorista de ônibus. Eram pobres. Não que passavam fome, mas ela tinha apenas um par tênis, o qual usava para sair e para ir à escola. Além disso, cuidava dos irmãos mais novos e limpava a casa enquanto os pais trabalhavam. Moravam numa casinha no fundo da casa da sua avó paterna, uma casa de três cômodos. Dormia na sala. Quando chegaram seus quinze, dezesseis anos descobriu as baladas, e era lá, com as amigas que ela encontrava um refúgio, eram as noitadas que faziam ela esquecer todos os seus problemas familiares.
Há quem diga que esses tais amigos de balada não são amigos de verdade, mas foi uma amiga de balada que a acolheu em casa quando seu pai a botou pra fora. Mas antes de sair de casa pela primeira vez, presenciou muita coisa. Brigas, em especial. Seu pai batia na sua mãe e talvez seja por isso que hoje sua mãe tenha tantos problemas psicológicos, de tanto apanhar.
Com dezenove anos engravidou. O cara era casado e ela não sabia. Foi um rolo enorme, porém superado. Voltou para casa dos pais e teve sua filha ali. Saiu de casa de novo, mas deixou a filha. Não que a tenha abandonado, isso jamais, mas sabia que não seria capaz de cuidar dela sozinha.
Sua filha cresceu, ela também. Quando sua filha tinha cinco anos de idade, ela começou a namorar um homem. De início sua filha não aceitava, talvez pelo medo de perder a mãe pra outro alguém, mas acabou acostumando-se com a idéia. Quando sua filha completou oito anos decidiu morar com a mãe. E, acredite, pode ser que essa não tenha sido a melhor decisão tomada, mas era o que essa criança mais desejava, sua mãe.
Foram tempos difíceis. Não que ambas não tenham tido momentos incríveis juntas, mas você que está lendo isso agora já deve saber que o que mais marca na vida das pessoas são momentos ruins.
Vou abrir o jogo, ela apanhou do “marido” várias vezes e uma dessas sua filha presenciou. Foi a pior briga. Ele queria matá-la, mas sua filha lutou, fez de tudo e conseguiu que não o fizesse. Ele as trancou dentro do quarto, fechou a casa e saiu. Era de manhãzinha, ele estava bêbado e drogado. Lembra daquela amiga que a acolheu quando o pai a botou pra fora de casa? Então, essa amiga morava no apartamento ao lado e ouviu os gritos da sua amiga e da criança. Ela conseguiu abrir a porta e tirá-las de lá.
Você deve estar pensando que esse cara, “marido” dela, é a pior pessoa do mundo, mas eu vou te dizer uma coisa, ele é uma pessoa incrível. Tem um coração muito bom. Tem seus defeitos, óbvio, mas é uma das melhores pessoas que se pode ter ao lado.
“Ta bom Nathalye, mas e aí? Como essa mulher está hoje?”
Hoje? Ela venceu !
Teve duas filhas, gêmeas, com esse cara que talvez você julgue a pior pessoa pra ela. Fez um curso de cabeleireira e abriu o próprio salão. Sua vida não mudou da água pro vinho, ela ainda luta. Todos os dias.
Mora sozinha com as duas meninas de quatro anos, sua primeira filha foi morar com o pai. Ela batalha de semana, sábado, domingo e feriados. Ou você acha que é fácil ter trinta e cinco anos, morar sozinha, trabalhar e cuidar de duas crianças? Mas ela conseguiu. Construiu sua vida, tijolo sobre tijolo. Um de cada vez. Ela é linda. Não só por fora, mas por dentro também. O nome dela é Alexandra. Ta aí, eu te apresento a minha mãe.

PS: quis dedicar o meu primeiro post a minha mãe, a quem eu devo tudo o que sou hoje!